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Sempre no Lugar


Algumas pessoas pegam aleatoriamente algumas certezas as colocam em prateleiras bem altas. Vão polindo-as durante toda a vida. Lustram, lustram, lustram, todo o dia, e deixam-nas a exaurir seus brilhos toscos.
Algumas pessoas ficam desesperadas se não têm este tipo de coisa.
Se você conhecer alguma pessoa com prateleiras assim, olhe e finja admiração pela coleção. Não duvide nunca de seu brilho. Lembre-se que polir outras certezas demanda muito trabalho e tempo, e escolher uma certeza com brilho próprio não é tarefa fácil.

Destino



Minha casa é muito grande.
Aqui é muito bom, tem muitas árvores, muito vento e silêncio.
Minha casa é pintada de um tom areia, tem heras que cobrem a parede externa, um sino de bronze e muitas cadeiras de balanço.
Moro num asilo.
Já fui jovem, meus vestidos de mocinha foram distribuídos pelos brechós da cidade, talvez ainda haja algum dentro de um baú desconhecido.
Só que a minha casa é um lugar esquisito.
Nós nos reunimos na sala principal para jogar cartas, ouvir Chopin e aturar alguns Led Zeppelins que alguém insiste em ouvir. Nossos dias são sempre embalados pela compania de um cachorro branco, que nos alegra com sua presença irracional e carinhosa. Nós amamos e odiamos este cachorro, mas ele faz parte de nós.
Em noites de lua cheia, depois que o jantar é servido, nos sentamos na varanda e ficamos vendo a lua, muito quietos. Sabemos que será a hora de alguém. Ele está lá, olhando para todos, com seu focinho a cheirar o passado de cada um. Ele está na nossa frente e olha em nossos olhos. Então ele vem, escolhe alguém e pede que lhe acaricie seu pêlo branco e sedoso.
Esta pessoa amanhecerá impreterivelmente sem vida na manhã seguinte.
No começo, quando cheguei, me contaram sobre o cachorro branco. Eu fiquei com muito medo, e na noites de lua cheia me escondia no meu quarto com medo de tudo aquilo.
Mas os anos foram passando, os jogos de cartas, os Chopins e os Led Zeppelins. E passei a não ter mais medo dele, apenas ficava apreensiva.
Nos últimos dias tenho me perguntado se a próxima escolhida seria eu. Ao lado do piano tenho acariciado constantemente o tronco do cachorro branco. Ele fica muito feliz e mexe o rabo com minha dedicação funesta.
Hoje é noite de lua cheia e ele está me olhando nos olhos.

Nadando


Estamos todos em alto mar. Estamos aqui por causa de nós mesmos. Tédio, fracasso, solidão.
A gente tem medo de se afogar, e, quando pressentimos que isso vai acontecer, juntamo-nos em frenesi desesperado. Aí um tenta afogar o outro. A gente quer sobreviver, apesar da vida sem graça. Uns têm pouco fôlego, se afogam. Quem sobra se agarra aos corpos mortos, e bóia com eles, até que eles se deteriorem.
Eu aprendi a sobreviver deste jeito e é assim que vou levando.
Diz-se que, quando estamos neste desespero, navios passam além e a gente não vê. Não sei se é verdade. Quem me contou isso foi uma das pessoas que bóiam longe da gente. São poucas. Elas parecem que nunca entram em desespero como nós, mas também não têm forças para alcançar navio algum, se estes realmente existem. Acho que os braços e pernas deles atrofiaram.
Num destes momentos em que a gente achava que ia se afogar, conti meu desespero para ver se via algum navio. Me afastei e tentei boiar como as Pessoas Atrofiadas. Muitos de nós vieram atrás de mim, me agarraram, tentaram me afogar, bebi muita água. Então voltei a me enganchar com os outros, matamos mais alguns e eu boiei sobre mais um corpo morto.

Colares


Pego a linha transparente e ereta, desenrolo-a. As contas, virgens, estão em uma desorganização angelical, com seus furos expostos depositados em uma superfície plana. A combinação se faz com paciência, deflorando cada uma delas. A linha, paciente, vai cedendo a sua transparência para configurar a beleza. Quanto mais exuberante o colar, maior é o número de contas e maior o tamanho do fio. Têm uma missão a cumprir e pouco importa a posição que tomam na hierarquia do colar. Vão seguindo, pacificamente, a ordem eterna que a linha dita. Por fim, o fecho imposto por um alicate, e está feito o adorno para o pescoço de um homem ou de uma mulher.

Explicando a Contabilidade do Banco das Almas


Este é um Banco que fica em uma Ilha do Mar Inexistente. Ali, contrata-se um novo funcionário para cada conta criada. Cada funcionário recebe 6 calculadoras de bolinhas de madeira, e cada uma destas calculadoras recebe o nome de Segundos, Minutos, Horas, Semanas, Meses e Anos. Eles não páram para descansar, dormir ou comer. Cada conta é aberta com um valor determinado, e cabe aos funcionários a contagem dos extratos até a conta ser fechada. Os funcionários são implacáveis e exatos na contagem. Há alguns funcionários que têm um trabalho extenso para ser feito, e, alguns, mal são contratados e já o trabalho acaba. Os funcionários do Banco Inexistente têm 30 dedos, respiram pelo cabelo e só comem quando conta da qual foram incumbidos é fechada. Quando a conta é fechada, o funcionário come a Calculadora dos Anos. Há muitos funcionários que saem magros, e poucos que saem gordíssimos. Quando a conta da qual um funcionário foi incumbida fecha, ele levanta de sua cadeira, se dirige à sacada do Banco das Almas e se atira para baixo, onde o mar o espera. Ali ele vira uma alga, um peixe, um tubarão ou uma baleia, dependendo do tamanho dos Anos que comeu.

O Nome










Certa vez, resolvi dar nome a 10 clips que eu tinha: Gilberto, Emília, Jofre, Aristides, Napoleão, Cíntia, Rodolfo, Maria Eduarda, Rebeca e Claudinei. Separei para todos tarefas de juntar papéis de maior ou menor importância.
Só que eu precisava usar estes papéis com constância, e destacar os clips de suas funções para ler o que havia escrito em folhas avulsas. E colocava o clipe do determinado documento sobre a mesa. E, pelo volume de papéis que iam se acumulando, o clipe caía atrás da mesa.
"Vou resgatar o meu clipe. Afinal, ele tem um nome."
E lá ia eu afastar a mesa, ficar de gatinhas, usar uma lanterna para resgatar a Emília, ou o Jofre, ou a Cíntia.
Mas parece que os meus clips achavam bonito escorregar para trás da escrivaninha, ou, como alternativa, ir para trás do armário.
"Todos têm nomes e são funcionais", pensava eu, e logo ia resgatá-los.
Fiz isso inúmeras vezes, em prol do nome que cada um tinha. E, quanto mais os resgatava, mais eles resolviam se esconder nestes locais inertes e escuros.
"O que fazer?", pensei eu, já com certas dores no corpo e os joelhos um pouco esfolados.
Resolvi então chamar todos os clips de Zé.
Mas os Zés continuavam a querer escapar do trabalho atrás da escrivaninha ou do armário.
"Chamam-se Zé, não devo me preocupar com eles."
E, assim, depois que todos sumiram, comprei uma caixa nova de clips. E até esqueci que o nome de todos os clips era Zé. Talvez se eu resolver afastar a mesa ou olhar atrás do armário eles estejam lá, inertes e desnomeados.

Reciclar


Temos, hoje, muitos livros que já lemos. Os colocamos no jardim, em grandes gamelas plásticas, e rezamos para chover.
Choveu.
Finda a chuva, untamo-nos com azeite e corremos pelados pelo jardim a fazer guerra com àquela pasta de letras derretidas. Depois de nos cansarmos, ficamos imóveis a secar no sol. Assim foi que, horas depois, saímos de dentro de nossas pupas de papier-maché. Contactamos nosso marchand, e foram vendidas nossas esculturas como a mais fina arte contemporânea. Logo estávamos com pilhas de livros para ler novamente.

Um sonho bom


Eu estava na rua paralela a minha, a pé. Pensei: “Estou perto”. Peguei uma rua transversal, bem estreita e, quando olhei, estava na beira do mar. O mar estava bastante bravo, com espumas bem brancas. Fui retrocedendo, e no meio das ondas surgiu a Tetéia. Olhei para onde eu tinha vindo, e tudo estava diferente. Não reconhecia mais onde eu estava. Perguntei para uma mulher:
- Que rua é esta?
- Você não está vendo? Todas as ruas têm um nome... É só ler. – Disse, em tom de troça.
- Você não está vendo que estou sem óculos e que não posso ler?
Então segurei bem firme na coleira da Tetéia, e pensei comigo mesma: “Tenho que arranjar um cordão para guiá-la para os carros não a atropelarem”.
E fiquei olhando as ruas, que eu não conhecia, com missão de nos conduzir em segurança até em casa.

Compromisso



Ela havia feito um contrato com Deus. Deus lhe disse que, se quisesse nascer, deveria respirar. Ela queria nascer e assinou o contrato.
Durante a sua vida, começou a achar muito chato respirar. E disse para Deus:
- Não estou mais a fim de respirar. É chato.
- Você é obrigada a respirar. Assinou um contrato.
Ela então foi em uma das repartições do céu, e moveu uma ação contra Deus pela sua tirania. Foram infindáveis audiências, e seu advogado a defendia de uma forma exemplar.
Deus, o onipresente, mostrava todos os códigos da Vida e citava as leis que diziam que havia um contrato que não podia ser rescindido. Era lei.
O advogado dela era muito astuto. E mostrou a todos que Deus estava sendo tirano.
Ela ganhou a ação e passou a viver sem respirar. Era bacana, pois não ficava mais resfriada e não mais voavam as delicadas folhas de ouro com as quais ela dourava o tempo.
E assim passaram os anos, ela foi ficando velha e morreu. E quando se encontrou de novo com Deus, na porta do céu, Deus lhe perguntou o porquê de ter levado a vida sem respirar.
- A sua tirania me aborreceu demais.
- Se eu tivesse te explicado que você tinha que respirar para sentir o cheiro do desodorante que usa, você aceitaria ?
- Mal sei o que é um desodorante.
- É um produto que os humanos inventaram para não sentirem o cheiro ruim que exala do corpo dos outros humanos.
- É mais prático não respirar.
Deus então mostrou o contrato que ela assinara antes de nascer.
- Isso foi chantagem. Eu queria nascer. Você não me explicou porque eu deveria respirar.
- É lei.
- Para quê existe esta lei ?
- Já te disse. Por causa do desodorante.
- Revogue-a, pois.
- Não posso. Tá escrita desde a eternidade.
- Onde ?
- Na sabedoria no universo.
Ela então pensou o que deveria ser a tal "Sabedoria do Universo".
- Prá quê serve a sabedoria do universo ?
- Para sermos sábio e universais.
Aí, enquanto estavam nesta palestra, um arcanjo veio trazendo um buquê de Magnólias para Deus.
- Isso tem cheiro bom.
- Verdade. Você sente o cheiro agora porque está no céu.
- Na Terra não tem destas flores ?
- Tem.
Ela tomou o buquê no braço do arcanjo e ficou cheirando.
- Porque ao invés de me obrigar a assinar um contrato você não me disse que existiam coisas tão bacanas para fazer com a respiração ?
- Você não iria entender. É um ser estúpido.















Estava ali há anos. Desde lá, seu vestido já desbotara, e da flor que existira em seu cabelo só restava o pó. Aguardava, com o rosto ao sol e à chuva e os olhos fixos, o retorno. Quem passava por ela não entendia, somente depositava velas acesas aos seus pés.
Naquele dia, depositaram-lhe duas malas de couro. Ela benzeu-se, abaixou e pegou as malas. Segurando-as, continuou a olhar o horizonte.
Duas semanas depois, era de tarde e o sol se punha. As crianças jogavam futebol por ali, absortas no destino de jogar.
O vento começou a ficar forte, e no horizonte surgui uma embarcação com leme reluzente e casco forte.
Ela abaixou os olhos, mirou seus pés e foi em direção ao mar, até que o oceano cobriu sua pele.

Paisagem


Fui à praia, e fiz uma caminhada numa trilha.
Fiz a trilha, depois comi num restaurante agradável com uma bela vista....
Após a janta (já era noite) estou na estrada, caminhando. Estou olhando a paisagem em volta desta estrada, onde há algumas casas. Olho para o morro, e tem uma janela flutuando, bem clara. Muito clara, muito, muito grande... e flutuando. O caso é que havia uma casa na ribanceira, toda escura, e só havia esta janela, enorme, acesa. E fiquei com vontade de entrar por esta janela e sair em outra dimensão.

O Vaso e a Tinta


Era uma vez uma lata de tinta que queria ser um vaso de flores. Limpou-se com aguarrás e foi servir de vaso de flores.
Colocaram umas rosas pretas dentro dela. As rosas ficaram vermelhas e morreram.

Fidelidade


Ele tinha um cachorro. Pegara-o pequenino, quando este ia ser sacrificado no centro de zoonoses onde trabalhava. Gostara de seu olhar, olhar de pidão.
O cachorro foi crescendo, passeios, ração, e inúmeráveis horas juntos. A hora do começo da noite era sagrada para o cachorro ir à rua cheirar o que devia cheirar e fazer o que tinha que ser feito. Às vezes, levava-o à praia, onde o cachorro se refestelava na areia e no mar, brincando como o ser mais leve que existe na Terra. Quando estava na cidade, o cachorro cuidava muito bem da casa e latia para quem devia latir.
Certa noite de insônia, levou o cachorro com ele para comprar cigarros, para protegê-lo na caminhada. Viu uma proeminência no muro, amarrou o cachorro lá. Depois foi para casa. O cachorro está lá esperando por seu dono, que nunca mais voltou.

Utilidades III


Era um pintor de estrelas. Não por poesia. Pintava as estrelas porque não gostava da cor que elas tinham. Queria que as estrelas fossem todas cor de laranja com pintinhas pretas. Colocava a escada todo o dia, à noite, na parede de seu prédio e lá ia com suas tintas. Pegava uma aqui, outra acolá, e ia pintando. As estrelas não gostavam muito, queriam ter a cor que lhes era natural. Se mexiam um pouco, gemiam, mas, no final, sempre eram lambuzadas de tinta laranja e bolinhas pretas. O pintor passava pintando todas que conseguia até clarear o dia. Aí ia dormir feliz. Certo dia olhou para o céu para ver como andava o resultado de seu labutar noturno.
"Caramba! Não há uma estrela laranja com pintinhas pretas!"
O que ele não sabia é que as estrelas que ele pintava tomavam um extenso e demorado banho, cheio de creme rinse e vitaminas, zombavam dele e continuavam a brilhar na cor que bem lhes dessem na telha.

O Homem Alado


Estava ele sentado sob as esculturas da Praça Ramos. Com a mão no queixo, olhava o Anhangabaú e meditava. Suas asas muito brancas, recolhidas, estavam quietas. Eu passava lá todo o dia, e, lá estava ele na mesma posição. Depois de algum tempo, me aproximei, e ele continuou como uma escultura que respirava. Acabou virando um costume meu ir ver o Homem Alado todo o dia depois do trabalho. Me perguntava se as outras pessoas que circulavam lá também o viam, mas tinha receio de perguntar a alguém, podiam achar que eu delirava. Mas depois isso deixou de ter importância. Era importante que eu o visse.
Como ele permanecesse do mesmo jeito durante meses, olhando para o mesmo ponto fixo, acabei me acostumando com a cor de seus cabelos e a sua mão sempre no queixo.
Um dia, eu sentei do seu lado para poder ver o que ele via. Ele se virou para mim e falou:
"Estou cansado".
Como eu olhasse pela primeira vez em seus olhos, fiquei comovida por ele interromper sua meditação para falar comigo.
"O que você quer?"
"Quero dormir."
Coloquei-o então dentro de minha bolsa, e carreguei-o para minha casa. Deitei-o em minha cama. Ele está lá até hoje, a dormir.

O rio


Tinha que atravessar o rio, pois prometera levar amoras para sua mãe fazer um bolo. A água estava fria e a correnteza, grande.
"Porque não sou mais forte?"
Saiu do rio, sacudiu-se e rumou para as amoreiras. Pegou o lenço que trazia no bolso e começou a colher sua promessa, com os frutos fazendo rubra sujeira.
Feita sua tarefa, acocorou-se sob as árvores.
Aconchegante sombra, nem ocultava nem deixava o sol castigar sua pele. Olhou para o terreno que lhe fora proibido - sonhava que havia uma belíssima princesa de cabelos cacheados naquele terreno ali, mas lhe era proibido ir além das amoreiras.
"Oras, existirão outras moças belíssimas de cabelos cacheados em alguma outra parte do planeta onde me é permitido ir."
Voltou para atravessar o rio e notou que estava muito, muito mais fria do que antes. Olhou para o rio e a correnteza era muito, muito maior. E foi mergulhando, os pés não tocando mais o fundo lodoso do rio.

(Sugiro ouvir a música "Cold Water" de Damien Rice)

A Dança


Periodicamente tenho que exorcizar meus demônios que moram comigo. Tenho que dançar com eles para que eles fiquem quietos, para que se satisfaçam com meu lado mais sombrio e depois continuem a dormir, quietinhos. Dou-lhes o sangue de meu corpo, o movimento de minha mente, e agito-me satisfazendo-lhes o seu desejo de ver-me acordar e decepar cabeças em sacrifício involuntário.
O meu corpo me traz a vida, e seus chifres me furam a garganta. Esses demônios habitam minha barriga e dormem a maioria do tempo, cansados de pular e de lutar. Quando acordam, tenho medo, mas tenho que satisfazê-los, pois, caso contrário, me consomem. Abro-lhes a porta da masmorra onde dormem, deixo-os fazer a bagunça necessária, a me pedir que saciem seus olhos vermelhos de ódio, desesperança e crueldade. Meus demônios me conhecem. Conhecem minhas estratégias.
Eles descem pelos meus pés, que querem cortar e machucar, e eu os levanto em uma batalha frenética, para não me vencerem covardemente. Quando levanto os pés, colocam um prego em minha sola. Eu não grito, pois gritar seria perder. Aceito esse prego como aspirina para uma dor de cabeça. Eles então aquecem o prego com suas línguas de fogo, e eu continuo a dançar, agitando os braços para conter a dor. Eles esquentam-no até que derreta, se misture com minhas veias e se funda com minha carne e desapareça. Eles sobem para meus braços, e colocam torniquetes que me apertam os pulsos. Minhas mãos são conduzidas, inertes, pelos meus braços. Eles apertam mais, e minhas mãos caem no chão. Meus braços circundam minha cabeça, a abençoar-me em perda tão custosa. Continuo dançando, e eles estancam sua agitação e me olham nos olhos. É aí que aproveito para serrar-lhes os chifres com meus dentes. Corto-os pelo começo, para que não cresçam muito rápido, e os mastigo e degluto. Eles ainda me olham nos olhos. Então descem para meu ventre, onde açoitam-me sem dó. Eles começam a rir baixinho, e eu rio uma risada muito alta, parecida com a deles. Eles devolvem minhas mãos e voltam para suas masmorras, exaustos, para acordarem numa próxima baralha.

(isso é um relembrando de postagens antigas)

Um estranho País


Ali as pessoas nasciam velhas e morriam bebês. Os velhos nasciam em tubos de papel crepon, eram vestidos de rosa ou azul, conforme o sexo, mamavam até os 78 anos e assim por diante. Só que já nasciam sábios, com dores no corpo e sabendo os mistérios deste mundo.
Conforme os velhos iam se embebezando, passavam a esquecer os mistérios e a sabedoria, mas ficando mais fortes. As pessoas ficavam felizes de ficarem mais fortes e sem dores no corpo.
Quem governava o País eram os suficientemente embebezados, pois tinham força para ir para a guerra e lutar por seu País. Aos velhos cabia a casa e o descanso, pois tinham que se preparar para embebezar-se. Quem era mais velho lia, admirava o sol e o cheiro da terra, mais nada.
Quando uma pessoa embebezava-se em demasia, ficava em um berço a mexer em chocalhos e tomando mamadeiras de feijoada. E, um belo dia, ia diminuindo de tamanho, diminuindo, diminuindo, até sumir. E então ninguém mais se lembrava que algum dia havia existido.

O CHORIMANGO E SUAS PREOCUPAÇÕES


Era uma vez um Chorimango. Era um bicho azul, com antenas e florzinhas pelo corpo. Chorimango era rico pois tinha parabólica em casa. Ele era dono de uma fábrica de refrigerantes, a "Barato Total". Era feliz pois tinha muitas secretárias, office-boys e gerentes ao seu dispor. Não precisava se levantar de sua mesa pois a copeira Lourdes sempre adivinhava quando ele queria tomar café. No domingo,ele jogava golfe com seus amigos e depois ia até a boate "Sonho Azulado". Lá ele encontrava Rizoleta, que era quem satisfazia seus desejos mais vulgares, inclusive tomar milk-shakes em copos de plástico. Ali ele podia ouvir Reginaldo Rossi, coisa que lhe era proibida em casa desde moleque. Diziam que líderes não ouvem tal música, era coisa da ralé. Quando ele ouvia as músicas deste cantor, ficava com vontade de andar descalço e coçar a barriga, coisa que fazia Rizoleta rir com prazer e trazer mais copos de plástico. Aí eles derramavam talco pelo quarto, mas tanto talco que ficava parecendo uma praia. Então eles faziam castelos de talco e deixavam vazar água da banheira, ficavam brancos como fantasmas, e então o Chorimango sacudia as antenas e as flores do seu corpo ficavam bem perfumadas. E ficavam se rindo um pro outro a noite inteira. O dono da boate não se importava com a sujeira, tanto que lhe deixava sempre disponível um estoque de talco, porque o Chorimango nunca deixara de pagar pelos seus desejos.
Então chegava segunda-feira. Ele tomava uma ducha, saía da "Sonho Azulado" e ia prá seu escritório, onde Lourdes, a copeira, já lhe deixava o café da manhã pronto, em cima de sua mesa. Aí ele trabalhava feliz, pois a "Barato Total" já vendia na Argentina, no Chile e no Uruguai. As contas iam sempre bem, pois era um refrigerante gostoso e barato. Tinha o sabor que ele mais gostava, Crossf, que era uma fórmula que seu irmão descobrira misturando bombom Sonho de Valsa, cigarrinhos de chocolate e Paçoca Amor com chá de rosas e eucalipto em pó. ninguém até hoje descobrira a fórmula de seu refrigerante predileto. Seu irmão inventara outros sabores, mais era Crossf que mais vendia.



*(isso também é um relembrando postagens antigas.)

PORTAS


Minha porta está fechada, não estou. Me tranco em meu quarto e ele flutua, isolado em um mundo que não existe. Fico só, admirando minhas fotos e meu passado.
Trancada em meu quarto, ele passeia por florestas, desertos, montanhas, bosques. Evito olhar para fora da janela.
Em meu quarto, a chave da porta é uma senha para o esquecimento da realidade, que me machuca e me faz chorar. Abro minha caixa de fotografias, fico me lembrando de como eu era feliz, e de como o leite derramado não me fazia falta. Anseio por esse vôo todas as manhãs, quando irei sentar em minhas almofadas fofas e sentir a brisa que vem de fora. Se o meu quarto não voasse, minha vida não teria sentido. A chave de meu quarto é a razão de meu viver.
Quero ser engenheira, e fabricar um Aeroporto de Quartos, e, talvez, fazer voá-los por toda a eternidade, sem pousar. O meu Aeroporto de Quartos terá a mais alta tecnologia, e serão abastecidos de gasolina todas as manhãs, antes de acordar, por frentistas vestidos de branco, com asas de gelo. Não farão barulho, não se sentirá a presença deles. Irão fazer os quartos todo o dia felizes.
Eu sei que vou conseguir, pois a tecnologia existe para isso. Minha chave ficará em meu pescoço, presa, esperando que eu possa abrir a minha porta de noite para beber água num riacho. Então, verei minhas contas, como o meu negócio é próspero, farei o meu papel de chefe e xingarei os frentistas que insistem em fazer barulho. Subirei em meu quarto, esperando que minhas descidas sejam abreviadas cada vez mais. Dormirei, fechando a janela o mais hermético possível para naum ver o que se passa lá fora.



(isso é um relembrando. já escrevi esta postagem em "contos", em 1° de novembro de 2005.)