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Minha casa é muito grande.
Aqui é muito bom, tem muitas árvores, muito vento e silêncio.
Minha casa é pintada de um tom areia, tem heras que cobrem a parede externa, um sino de bronze e muitas cadeiras de balanço.
Moro num asilo.
Já fui jovem, meus vestidos de mocinha foram distribuídos pelos brechós da cidade, talvez ainda haja algum dentro de um baú desconhecido.
Só que a minha casa é um lugar esquisito.
Nós nos reunimos na sala principal para jogar cartas, ouvir Chopin e aturar alguns Led Zeppelins que alguém insiste em ouvir. Nossos dias são sempre embalados pela compania de um cachorro branco, que nos alegra com sua presença irracional e carinhosa. Nós amamos e odiamos este cachorro, mas ele faz parte de nós.
Em noites de lua cheia, depois que o jantar é servido, nos sentamos na varanda e ficamos vendo a lua, muito quietos. Sabemos que será a hora de alguém. Ele está lá, olhando para todos, com seu focinho a cheirar o passado de cada um. Ele está na nossa frente e olha em nossos olhos. Então ele vem, escolhe alguém e pede que lhe acaricie seu pêlo branco e sedoso.
Esta pessoa amanhecerá impreterivelmente sem vida na manhã seguinte.
No começo, quando cheguei, me contaram sobre o cachorro branco. Eu fiquei com muito medo, e na noites de lua cheia me escondia no meu quarto com medo de tudo aquilo.
Mas os anos foram passando, os jogos de cartas, os Chopins e os Led Zeppelins. E passei a não ter mais medo dele, apenas ficava apreensiva.
Nos últimos dias tenho me perguntado se a próxima escolhida seria eu. Ao lado do piano tenho acariciado constantemente o tronco do cachorro branco. Ele fica muito feliz e mexe o rabo com minha dedicação funesta.
Hoje é noite de lua cheia e ele está me olhando nos olhos.