Hóspede


Eu tenho um atelier. As vezes resolvem frequentar ali uns insetos interessantes. O último que apareceu foi uma dessas borboletas noturnas, com uns 10 cm de envergadura. Nas asas, uns desenhos bonitos, bolinhas, traços, uma renda em forma de asas.
Ela dorme as vezes em meu banheiro, as vezes sob o teto, as vezes sobre meus armários.
Eu tenho uma porta que é muito decorada, e, entre as decorações nessa porta, uma réplica de uma borboleta, amarela com pintinhas pretas, réplica que não peca em seu realismo. Tenho também um cavaquinho, pendurado na parede lateral à porta, que, por falta de dedos competentes para fazer música, virou um quadro.
Pois eis que chego em casa hoje, deposito todo o meu peso trazido de um dia em uma cidade grande, sento em minha cadeira e, depois de um longo suspiro de um dia trabalhoso, percorro o olhar pelo atelier. E, lá está ela. Sentada no braço do cavaquinho, plasticamente e matematicamente instalada bem no meio deste. Fico a observá-la. Está imóvel, talvez pela chegada da dona do pedaço. Ficamos conversando um pouco, silenciosamente. Depois de feitas as devidas honras, esta começa a balançar as asas, numa espécie de dança de acasalamento. Taí. Apaixonada pela borboleta amarela pousada eternamente em minha porta.
Vamos ver o tempo que dura esta paixão. Será que irá entrar em depressão e deixar de frequentar meu atelier ? Será que cairá na bebida de flores suspeitas ? Deixará de sugar o néctar das flores e morrerá de fome ?Talvez, tenha sido uma descoberta vindo com o frequentar. Talvez, apenas uma conveniência. O que eu não sabia é que as borboletas também são trouxas...

Um comentário:

Anônimo disse...

em encantação. imerso em outro universo aqui. posso morar? obrigado. me instalando. descalço pelo atelier. intimo de insetos. boa tarde, claudia.
rodolfo.