
Animal
cheiro
olhos
racionalidade
não me lembro quando comprei
não me lembro quando esqueci de usar
deixei esquecido em algum lugar junto com minha sobrevivência humana
me ocupo com versos e o cheiro que eles têm
me ocupo com corpos
olhos desburocratizados depois do trabalho
pesos a carregar
e as savanas a rugir dentro do estômago
a vontade de colocar carne crua entre os dentes
sacudí-la para o outro ver a caça
estilhaçar com os caninos o sangue da presa
sentindo o estômago forrado da crueldade necessária
não saber quem ganhou a eleição
como comportar-se elegantemente em eventos sociais
ou como pagar a conta
lembro de meu cérebro quando vou dormir
esquecendo de sobreviver
O FRIO NO VERÃO
O PEITO ME ARDE
CHAMA QUE PRECISA FOGO
LANÇA-CHAMAS QUE ME FAZ EM BRASA
EM MINHA PELE HÁ QUEIMADURAS
MEUS OLHOS CHORAM E ME ESFRIAM A FACE
EM MEUS PÉS, VEIAS PULSAM SOBRE O GELO
E EU,
QUEIMO
O CIO ESCORRE POR MINHAS PERNAS
DEIXANDO RASTRO VERMELHO SOBRE O GELO,
QUE NÃO DERRETE
MEUS PÉS FERIDOS
MOSTRAM A CARNE
QUE NÃO DESISTE
AFUNDADOS NO GELO
QUE RESISTE
LEVADA POR SOMBRAS APAGADAS
BUSCO SOMBRA QUE ME CONSUMA
MINHA CHAMA É SÓ MINHA
SOMBRA ME CHAMA DE MUITO LONGE
E EU QUEIMO CONSUMINDO A MIM MESMA
NÃO HÁ COMBUSTÍVEL POSSÍVEL
MEU CORAÇÃO ME BASTA
E ME ALARGA
BUSCO FOGO QUE ME DERRETA
NESTE GELO QUE NÃO CESSA
ROSTO
ando devagar pela cidade
procurando em cada janela
planta carro esquina
um pedaço de meu rosto
procuro com cuidado
(aquela janela apagou
mais um pedaço que voou por aí)
busco pedaços do meu rosto
em cada trabalhador que sobe a ladeira
na babá que desce com o carrinho
na madame que chega das compras
coloco as mãos em meu rosto
e choro um pouco
prá ver se os pedaços estão no lugar
ando cansada com a desordem de meu rosto
e dos pedaços que dele insistem em cair todos de uma vez só
mas tenho paciência
toda vez que me desespero saio andando pela cidade a procurá-los
quando os acho, todos
fico me reconhecendo no espelho
e pedindo, meu Deus,
que isso um dia cesse.

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